segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ANGU À BAIANA: MEMÓRIAS E IDENTIDADES NO RIO DE JANEIRO

Estou lendo muito sobre a história da alimentação e gostaria de compartilhar alguns trabalhos realizados por alunos.

Por Joana Muller de Carvalho

A reunião em torno de um prato possui certos sentidos, acompanhados de uma forma de preparo, de comensalidade e de consumo específicos. O motivo pelo qual cada grupo se apropria do angu à baiana nos revela traços de pertencimento* ao mundo, de negociação com as condições de existência e de sentidos de sociabilidade. As características, os símbolos e as ocasiões de consumo nos apontam diferentes formas de representação cultural e identitária no contexto urbano carioca. O objetivo desta monografia é entender de que maneira as representações sobre o angu à baiana revelam formas de identidade na cidade.



*Pertencimento - ou o sentimento de pertencimento é a crença subjetiva numa origem comum que une distintos indivíduos1. Os indivíduos pensam em si mesmos como membros de uma coletividade na qual símbolos expressam valores, medos e aspirações. Esse sentimento pode fazer destacar características culturais e raciais.





O angu à baiana é um prato tradicional no Rio de Janeiro, de consumo bem marcado em algumas regiões periféricas e no centro da cidade. Composto de angu acrescido de um condimentado caldo de miúdos, não se encontra a tradição do consumo deste prato no estado ao qual seu nome faz referência. A partir do relato de Debret sobre as negras vendedoras de angu na Praia do Peixe no século XIX, este trabalho tenta percorrer a história do prato na cidade que das mãos e temperos de baianas e negras quituteiras chega aos carrinhos de Angu do Gomes passando como elemento indispensável nas rodas de samba e festas em casas de bamba.






A associação simbólica deste prato ao contexto urbano carioca da virada do século XIX para o XX servirá de base para considerações atuais sobre o imaginário de grupos identitários ligados a ele. Para essa relação, é indispensável considerar que vinculada à imagem de negras vendedoras de rua, bastante presentes no mercado de trabalho carioca, também se constatou uma mística da negra baiana ligada a um fascínio e autenticidade, que os anos 30/40 divulgaram pelas composições da Rádio Nacional e que sacramentou um certo perfil de baiana na então capital nacional. Nesse processo, uma “culinária baiana” se reinventa no Rio de Janeiro tendo nos seus ingredientes e forma, claras associações ao que se destacaria na imagem da baiana idealizada.






Após uma primeira experiência de observação participante na Praça XV de Novembro, em julho de 2006, no centro do Rio de Janeiro, foi evidente nos relatos dos transeuntes locais uma forte memória e identidade ligadas ao angu à baiana, especialmente conectadas ao legendário Angu do Gomes, que dos anos 1930 aos 1980 foi vendido em carrinhos de rua distribuídos pela região central da cidade. Neste contexto de consumo se faz necessária a discussão dos conceitos de tradição e autenticidade, associando este Angu do Gomes a algo que se perdeu, que definia uma certa culinária carioca, e um perfil de sociabilidade boêmia e trabalhadora na cidade.




Portanto, a pesquisa se divide em percorrer os caminhos históricos do angu na cidade e perceber como os complexos alimentares balizadores da pesquisa se utilizam do angu à baiana para marcar laços de pertencimento à cidade. São estes, o complexo da rua (com a atividade das barracas de angu do Gomes, essencialmente na Praça XV do centro da cidade) e o da festa (reuniões gregárias em torno da comida e da música, em redutos de escolas de samba e agrupamentos em torno desse gênero musical). Esses contextos serão analisados através de tipos ideais de consumidores como o do sambista, do transeunte da madrugada e o da cozinheira.

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